Memórias do fundador · Parte 2

A história do Bonito HI Hostel

Recomeços, mudanças profissionais e os aprendizados que ajudaram a construir a identidade do hostel em Bonito.

Relato de Luiz Octavio Campos Leitura aproximada: 16 minutos

Continuação de uma história real

Antes de Bonito, houve outras obras, outros planos e uma grande mudança de caminho.

Nesta segunda parte, Luiz Octavio Campos recorda a vida profissional antes do hostel, o encerramento de sua construtora, a decisão de recomeçar e os aprendizados que levaria para a administração de uma hospedagem em uma cidade que começava a ganhar projeção nacional.

Luiz Octavio Campos, fundador do Bonito HI Hostel e Pousada
Luiz Octavio Campos, engenheiro civil e fundador do Bonito HI Hostel e Pousada.

O narrador desta história

Luiz Octavio Campos

Formado em engenharia civil no fim da década de 1970, Luiz Octavio trabalhou durante anos na construção civil, administrou equipes numerosas, atravessou períodos de forte instabilidade econômica e precisou encerrar um negócio que havia levado muito tempo para construir.

O que veio depois não foi uma simples troca de profissão. Foi uma mudança de vida: primeiro para o interior de São Paulo e, mais tarde, para Bonito, onde sua experiência com projetos, custos, equipes e planejamento ajudaria a dar forma a um novo empreendimento.

EngenhariaFormação e experiência em obras e administração de equipes.
RecomeçoCapacidade de mudar de atividade diante das dificuldades.
HospitalidadeAprendizado construído diariamente desde os primeiros anos do hostel.
Fim dos anos 1970

Formação em engenharia civil e início da trajetória profissional.

Década de 1980

Obras, equipes, inflação elevada e necessidade constante de adaptação.

1994

Encerramento das atividades da construtora e início de uma mudança profunda.

Fim dos anos 1990

Bonito cresce, melhora seus acessos e entra em uma nova fase do turismo.

1 Transformações em Bonito

Bonito entra em uma nova fase

O avanço das estradas, da comunicação e do turismo transformou a cidade e exigiu uma nova maneira de trabalhar.

Quando cheguei a Bonito, eu já esperava que a cidade mudasse. Uma região com tanta beleza natural, cedo ou tarde, teria melhores meios de transporte, comunicação e acesso à informação. Na minha lembrança, o fim da década de 1990 marcou uma virada importante: as estradas melhoraram, a internet começou a fazer parte da rotina e o destino passou a aparecer com mais frequência na mídia.

Essas mudanças facilitaram a chegada de visitantes, aproximaram Bonito de outras regiões do país e abriram espaço para novos negócios. Ao mesmo tempo, ficou evidente que o crescimento precisaria vir acompanhado de responsabilidade. O turismo de natureza não permite promessas desconectadas da realidade. O clima muda, as estradas rurais fazem parte dos deslocamentos e cada passeio tem características próprias que precisam ser explicadas com clareza.

Com o tempo, passei a valorizar ainda mais uma comunicação simples e honesta. Divulgar Bonito não deveria significar exagerar, mas ajudar o visitante a entender onde está indo, o que encontrará e como se preparar. Para mim, profissionalismo sempre esteve ligado à capacidade de informar bem, cumprir o que foi combinado e respeitar o destino.

“O crescimento trouxe oportunidades, mas também aumentou nossa responsabilidade com quem chegava para conhecer Bonito.”
Hotel antigo em Bonito, Mato Grosso do Sul, antes do crescimento do turismo
Bonito antes do crescimento que ampliaria o fluxo de visitantes e transformaria a rotina da cidade.
2 Trabalho e adaptação

Reinventar-se para continuar

Nem sempre a solução está em insistir no mesmo caminho. Às vezes, continuar exige mudar.

Formei-me engenheiro civil no fim da década de 1970 e comecei construindo casas para vender em sociedade com um amigo. Depois vieram obras maiores e conjuntos de casas populares. Era um período em que a economia brasileira mudava rapidamente, a inflação consumia o valor do dinheiro e qualquer planejamento precisava ser revisto muitas vezes.

Em determinado momento, as obras diminuíram e fiquei meses sem trabalhar na construção. Eu tinha família, despesas e não podia esperar parado. Alguns amigos fabricavam queijos em Minas Gerais e outros administravam estabelecimentos que poderiam comprar esses produtos. Passei então a transportar e vender queijos e muçarela. Comecei com poucos clientes e fui ampliando a rota.

Não era a atividade para a qual eu havia estudado, mas era trabalho digno e necessário. Essa fase me ensinou uma coisa que levaria para toda a vida: formação profissional é importante, mas disposição para aprender e capacidade de adaptação são igualmente decisivas. Quando um caminho se fecha, é preciso observar a realidade e encontrar uma alternativa possível.

  • Tomar decisões a partir da realidade, não apenas do plano original.
  • Aprender rapidamente quando uma nova atividade se torna necessária.
  • Preservar a responsabilidade com a família e com os compromissos assumidos.
Luiz Octavio Campos em fotografia antiga feita em São Paulo
Luiz Octavio Campos em São Paulo, antes da mudança de vida que o levaria ao interior e, mais tarde, a Bonito.
3 O fim de um ciclo

A reviravolta que mudou o caminho

Encerrar a construtora foi uma decisão dolorosa, mas também evitou que as dificuldades se tornassem ainda maiores.

Houve um período em que a construtora cresceu, recebeu muitas obras e chegou a manter uma equipe numerosa. Eu acreditava que estava no caminho certo. Depois, a instabilidade econômica voltou a afetar o setor, as obras começaram a diminuir e os contratos maiores terminaram sem que novos projetos surgissem na mesma proporção.

Fui reduzindo a estrutura com cuidado. Primeiro vendi bens da empresa e desliguei os funcionários mais recentes. Depois precisei continuar diminuindo a equipe. O momento mais difícil foi fazer a rescisão do último empregado e perceber que todo aquele ciclo profissional havia chegado ao fim.

Segundo minhas anotações e lembranças, a empresa chegou a ter 142 empregados registrados em 1989. Quando as atividades foram encerradas, em 1994, não ficou nenhum processo trabalhista. Para mim, isso sempre foi importante: a empresa terminou, mas os compromissos com as pessoas foram respeitados.

Naquele momento eu não enxergava com clareza o que viria depois. Restavam um carro usado, o apartamento e uma casa de campo que não conseguia vender. Com o tempo, entendi que encerrar antes de acumular dívidas havia sido uma decisão difícil, porém responsável. O fim da construtora abriu espaço para uma mudança que acabaria me levando para outro setor, outra cidade e outra forma de trabalhar.

“Naquele dia eu via apenas o fim de uma empresa. Mais tarde percebi que também era o começo de outra vida.”
Construção da fachada do Bonito HI Hostel e Pousada em 1997
Anos depois do encerramento da construtora, a experiência com obras seria aplicada na criação do hostel em Bonito.
4 Um novo começo

Uma escolha diferente para começar novamente

A mudança para Bonito não nasceu de um impulso romântico, mas da vontade de construir um projeto viável em um lugar com futuro.

Depois de encerrar a construtora, mudei primeiro para o interior de São Paulo. Alguns amigos estranharam a decisão e outros admiraram a disposição de deixar um caminho conhecido para tentar algo diferente. Um deles dizia que eu era o mais aventureiro do grupo, porque havia escolhido começar novamente em uma região distante dos centros onde tínhamos vivido e trabalhado.

Eu nunca pensei em abrir apenas uma pequena pousada como um passatempo. Desde o início, procurei observar dados, custos, possibilidades de crescimento e o comportamento do turismo. Minha formação de engenheiro me levava a analisar estrutura, etapas e viabilidade antes de tomar uma decisão.

Bonito ainda era pouco conhecido por grande parte do país, mas já demonstrava um potencial evidente. A cidade reunia natureza preservada, atividades turísticas em desenvolvimento e espaço para uma hospedagem com proposta diferente. Ser um dos primeiros trazia riscos, mas também permitia participar da construção de uma nova fase do destino.

A escolha por Bonito foi, portanto, uma combinação de coragem e planejamento. Não havia garantias. Havia trabalho a fazer, muitas decisões pela frente e a possibilidade concreta de transformar a experiência acumulada em um novo negócio.

Fotografia antiga da cidade de Bonito, Mato Grosso do Sul
A cidade escolhida para o recomeço ainda vivia uma fase inicial de sua projeção turística.
5 Organização da operação

Quando a hospedagem se torna uma empresa

Receber bem depende de cordialidade, mas também de rotina, limites e responsabilidades claramente definidos.

Uma das primeiras conclusões que tirei ao observar o setor de hospedagem foi que a vida particular e a operação do negócio precisavam estar bem organizadas. Um hotel, uma pousada ou um hostel não pode funcionar como extensão improvisada da casa de seus proprietários. O hóspede espera ser recebido em um ambiente preparado para ele.

Isso não significa perder a proximidade ou o atendimento humano. Significa definir horários, responsabilidades, áreas de uso, padrões de limpeza e formas de comunicação. Quando familiares trabalham na empresa, também precisam compreender suas funções e respeitar os mesmos procedimentos da equipe.

Com o tempo, percebi que profissionalizar não era tornar o ambiente frio. Era justamente criar condições para que a hospitalidade funcionasse todos os dias, mesmo quando os proprietários não estivessem presentes em cada detalhe. A organização protege a equipe, melhora a experiência do visitante e dá continuidade ao negócio.

  • Separar espaços particulares das áreas destinadas aos hóspedes.
  • Definir funções, horários e responsabilidades.
  • Transformar boas intenções em procedimentos que possam ser repetidos.
Antiga recepção do Bonito HI Hostel e Pousada nos primeiros anos de funcionamento
A antiga recepção registra uma fase importante da organização e da profissionalização do Bonito HI Hostel.
6 Gestão e relações pessoais

Relações pessoais e limites necessários

Amigos e familiares podem apoiar um negócio, mas a operação precisa preservar seus recursos e suas regras.

Ao longo da vida, vi pequenos negócios enfrentarem dificuldades porque seus proprietários não conseguiam separar amizade, família e administração. Cortesias frequentes, despesas sem controle e uso particular de recursos da empresa parecem pequenos quando acontecem isoladamente, mas podem comprometer uma operação com margens reduzidas.

Esse aprendizado também se aplicava ao transporte, aos quartos e às áreas de atendimento. Cada veículo parado, cada acomodação ocupada sem planejamento e cada serviço prestado sem considerar seus custos interfere no resultado final. Não se trata de afastar as pessoas, mas de explicar com clareza que o negócio sustenta empregos, manutenção, impostos e investimentos.

Aprendi que dizer “não” de forma respeitosa também faz parte da gestão. Amigos e familiares podem colaborar divulgando, respeitando as regras, valorizando o trabalho e compreendendo que uma empresa precisa manter equilíbrio financeiro para continuar funcionando.

“Limite não é falta de consideração. Muitas vezes, é o que permite preservar a relação e o negócio.”
Hóspedes socializando nas áreas comuns do Bonito HI Hostel
A convivência entre hóspedes também mostra como relações pessoais e regras de uso dos espaços precisam caminhar com equilíbrio.
7 A proposta do hostel

A identidade construída ao longo dos anos

A filosofia de convivência permaneceu, enquanto a estrutura e os serviços acompanharam as mudanças do público.

O Bonito HI Hostel nasceu ligado à filosofia da Hostelling International, que valorizava a convivência entre viajantes, a troca de experiências e uma hospedagem acessível. Nos primeiros anos, o perfil dos hóspedes era predominantemente aventureiro, com forte presença de estrangeiros e pessoas dispostas a compartilhar espaços e conversar sobre suas viagens.

Naquele período, os quartos não tinham televisão nem frigobar. A decisão fazia sentido dentro da proposta original e dos recursos disponíveis. Havia uma sala de televisão compartilhada, salão de jogos e áreas de convivência. A ideia era incentivar o encontro entre os hóspedes e evitar que cada pessoa se isolasse no quarto depois dos passeios.

O público mudou, a tecnologia mudou e a hospedagem também precisou mudar. Ao longo dos anos, reformas foram planejadas, estruturas foram modernizadas e a operação se adaptou a novas expectativas. O que fazia sentido no início não precisava permanecer igual para sempre.

Essa adaptação, porém, não eliminou a identidade do hostel. As áreas comuns, o contato entre viajantes e o atendimento próximo continuaram importantes. O desafio passou a ser combinar a convivência que marcou o começo da história com o conforto e a praticidade esperados pelos hóspedes atuais.

A administração também aprendeu a trabalhar com a sazonalidade. Os períodos de maior ocupação precisam ajudar a manter equipe, manutenção e melhorias nos meses mais tranquilos. Reformas e compras são avaliadas com antecedência, considerando custos, necessidade e capacidade de pagamento.

Hóspedes convivendo e compartilhando experiências no Bonito HI Hostel
A convivência entre viajantes e a troca de experiências sempre fizeram parte da identidade do Bonito HI Hostel.
8 Experiência diária

Aprendizados construídos na rotina

Muitas regras não nasceram no papel. Surgiram depois de observar o uso dos espaços e buscar soluções mais seguras e organizadas.

Administrar uma hospedagem significa acompanhar milhares de pequenas situações. Áreas compartilhadas, equipamentos de lazer, festas, churrasqueira e espaços externos dependem da colaboração de quem utiliza. Quando isso não acontece, a equipe precisa dedicar mais tempo à limpeza, à manutenção e à recuperação do que foi deixado fora do lugar.

Foi assim que várias regras do hostel surgiram. A proteção da mesa de sinuca, por exemplo, precisava ser recolocada depois do uso para evitar poeira e umidade. A churrasqueira exigia atenção com fogo, fumaça, resíduos e segurança. As confraternizações de Natal, Réveillon e Carnaval eram agradáveis, mas demandavam organização e participação responsável.

Em alguns momentos, foi necessário limitar o uso de determinados espaços ou interromper atividades. Essas decisões não foram tomadas para reduzir a convivência, mas para preservar o patrimônio, a segurança dos hóspedes e as condições de trabalho da equipe.

A rotina ensinou que hospitalidade também envolve regras bem explicadas. Quanto mais claro é o funcionamento da casa, mais fácil se torna manter um ambiente agradável para todos. O objetivo nunca foi controlar cada movimento, e sim garantir que diferentes pessoas pudessem compartilhar o mesmo espaço com respeito.

  • Regras claras reduzem conflitos e evitam interpretações diferentes.
  • Segurança e limpeza precisam prevalecer sobre conveniências momentâneas.
  • Áreas compartilhadas funcionam melhor quando todos compreendem sua responsabilidade.
Hóspedes reunidos e socializando no Bonito HI Hostel em uma fotografia antiga
Um registro antigo da convivência entre hóspedes, parte importante da história do Bonito HI Hostel.

O que ficou dessa fase

Princípios que atravessaram a história do hostel

A experiência na engenharia, o encerramento da construtora e os primeiros anos da hospedagem ajudaram a formar uma maneira própria de administrar: observar, planejar, corrigir e adaptar sem perder a responsabilidade com as pessoas.

01Adaptação

Mudar o plano quando a realidade mostra que o caminho precisa ser revisto.

02Planejamento

Tratar reformas, compras, equipes e sazonalidade com antecedência.

03Profissionalismo

Definir funções, limites e procedimentos sem perder o atendimento humano.

04Responsabilidade

Cumprir compromissos e proteger a continuidade do negócio.

A história continua todos os dias

Conheça o Bonito HI Hostel e Pousada

Uma hospedagem que cresceu junto com Bonito, preservando áreas de convivência, atendimento próximo e uma estrutura preparada para diferentes perfis de viajantes.

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