Bonito entra em uma nova fase
O avanço das estradas, da comunicação e do turismo transformou a cidade e exigiu uma nova maneira de trabalhar.
Quando cheguei a Bonito, eu já esperava que a cidade mudasse. Uma região com tanta beleza natural, cedo ou tarde, teria melhores meios de transporte, comunicação e acesso à informação. Na minha lembrança, o fim da década de 1990 marcou uma virada importante: as estradas melhoraram, a internet começou a fazer parte da rotina e o destino passou a aparecer com mais frequência na mídia.
Essas mudanças facilitaram a chegada de visitantes, aproximaram Bonito de outras regiões do país e abriram espaço para novos negócios. Ao mesmo tempo, ficou evidente que o crescimento precisaria vir acompanhado de responsabilidade. O turismo de natureza não permite promessas desconectadas da realidade. O clima muda, as estradas rurais fazem parte dos deslocamentos e cada passeio tem características próprias que precisam ser explicadas com clareza.
Com o tempo, passei a valorizar ainda mais uma comunicação simples e honesta. Divulgar Bonito não deveria significar exagerar, mas ajudar o visitante a entender onde está indo, o que encontrará e como se preparar. Para mim, profissionalismo sempre esteve ligado à capacidade de informar bem, cumprir o que foi combinado e respeitar o destino.
“O crescimento trouxe oportunidades, mas também aumentou nossa responsabilidade com quem chegava para conhecer Bonito.”
Reinventar-se para continuar
Nem sempre a solução está em insistir no mesmo caminho. Às vezes, continuar exige mudar.
Formei-me engenheiro civil no fim da década de 1970 e comecei construindo casas para vender em sociedade com um amigo. Depois vieram obras maiores e conjuntos de casas populares. Era um período em que a economia brasileira mudava rapidamente, a inflação consumia o valor do dinheiro e qualquer planejamento precisava ser revisto muitas vezes.
Em determinado momento, as obras diminuíram e fiquei meses sem trabalhar na construção. Eu tinha família, despesas e não podia esperar parado. Alguns amigos fabricavam queijos em Minas Gerais e outros administravam estabelecimentos que poderiam comprar esses produtos. Passei então a transportar e vender queijos e muçarela. Comecei com poucos clientes e fui ampliando a rota.
Não era a atividade para a qual eu havia estudado, mas era trabalho digno e necessário. Essa fase me ensinou uma coisa que levaria para toda a vida: formação profissional é importante, mas disposição para aprender e capacidade de adaptação são igualmente decisivas. Quando um caminho se fecha, é preciso observar a realidade e encontrar uma alternativa possível.
- Tomar decisões a partir da realidade, não apenas do plano original.
- Aprender rapidamente quando uma nova atividade se torna necessária.
- Preservar a responsabilidade com a família e com os compromissos assumidos.
A reviravolta que mudou o caminho
Encerrar a construtora foi uma decisão dolorosa, mas também evitou que as dificuldades se tornassem ainda maiores.
Houve um período em que a construtora cresceu, recebeu muitas obras e chegou a manter uma equipe numerosa. Eu acreditava que estava no caminho certo. Depois, a instabilidade econômica voltou a afetar o setor, as obras começaram a diminuir e os contratos maiores terminaram sem que novos projetos surgissem na mesma proporção.
Fui reduzindo a estrutura com cuidado. Primeiro vendi bens da empresa e desliguei os funcionários mais recentes. Depois precisei continuar diminuindo a equipe. O momento mais difícil foi fazer a rescisão do último empregado e perceber que todo aquele ciclo profissional havia chegado ao fim.
Segundo minhas anotações e lembranças, a empresa chegou a ter 142 empregados registrados em 1989. Quando as atividades foram encerradas, em 1994, não ficou nenhum processo trabalhista. Para mim, isso sempre foi importante: a empresa terminou, mas os compromissos com as pessoas foram respeitados.
Naquele momento eu não enxergava com clareza o que viria depois. Restavam um carro usado, o apartamento e uma casa de campo que não conseguia vender. Com o tempo, entendi que encerrar antes de acumular dívidas havia sido uma decisão difícil, porém responsável. O fim da construtora abriu espaço para uma mudança que acabaria me levando para outro setor, outra cidade e outra forma de trabalhar.
“Naquele dia eu via apenas o fim de uma empresa. Mais tarde percebi que também era o começo de outra vida.”
Uma escolha diferente para começar novamente
A mudança para Bonito não nasceu de um impulso romântico, mas da vontade de construir um projeto viável em um lugar com futuro.
Depois de encerrar a construtora, mudei primeiro para o interior de São Paulo. Alguns amigos estranharam a decisão e outros admiraram a disposição de deixar um caminho conhecido para tentar algo diferente. Um deles dizia que eu era o mais aventureiro do grupo, porque havia escolhido começar novamente em uma região distante dos centros onde tínhamos vivido e trabalhado.
Eu nunca pensei em abrir apenas uma pequena pousada como um passatempo. Desde o início, procurei observar dados, custos, possibilidades de crescimento e o comportamento do turismo. Minha formação de engenheiro me levava a analisar estrutura, etapas e viabilidade antes de tomar uma decisão.
Bonito ainda era pouco conhecido por grande parte do país, mas já demonstrava um potencial evidente. A cidade reunia natureza preservada, atividades turísticas em desenvolvimento e espaço para uma hospedagem com proposta diferente. Ser um dos primeiros trazia riscos, mas também permitia participar da construção de uma nova fase do destino.
A escolha por Bonito foi, portanto, uma combinação de coragem e planejamento. Não havia garantias. Havia trabalho a fazer, muitas decisões pela frente e a possibilidade concreta de transformar a experiência acumulada em um novo negócio.
Quando a hospedagem se torna uma empresa
Receber bem depende de cordialidade, mas também de rotina, limites e responsabilidades claramente definidos.
Uma das primeiras conclusões que tirei ao observar o setor de hospedagem foi que a vida particular e a operação do negócio precisavam estar bem organizadas. Um hotel, uma pousada ou um hostel não pode funcionar como extensão improvisada da casa de seus proprietários. O hóspede espera ser recebido em um ambiente preparado para ele.
Isso não significa perder a proximidade ou o atendimento humano. Significa definir horários, responsabilidades, áreas de uso, padrões de limpeza e formas de comunicação. Quando familiares trabalham na empresa, também precisam compreender suas funções e respeitar os mesmos procedimentos da equipe.
Com o tempo, percebi que profissionalizar não era tornar o ambiente frio. Era justamente criar condições para que a hospitalidade funcionasse todos os dias, mesmo quando os proprietários não estivessem presentes em cada detalhe. A organização protege a equipe, melhora a experiência do visitante e dá continuidade ao negócio.
- Separar espaços particulares das áreas destinadas aos hóspedes.
- Definir funções, horários e responsabilidades.
- Transformar boas intenções em procedimentos que possam ser repetidos.
Relações pessoais e limites necessários
Amigos e familiares podem apoiar um negócio, mas a operação precisa preservar seus recursos e suas regras.
Ao longo da vida, vi pequenos negócios enfrentarem dificuldades porque seus proprietários não conseguiam separar amizade, família e administração. Cortesias frequentes, despesas sem controle e uso particular de recursos da empresa parecem pequenos quando acontecem isoladamente, mas podem comprometer uma operação com margens reduzidas.
Esse aprendizado também se aplicava ao transporte, aos quartos e às áreas de atendimento. Cada veículo parado, cada acomodação ocupada sem planejamento e cada serviço prestado sem considerar seus custos interfere no resultado final. Não se trata de afastar as pessoas, mas de explicar com clareza que o negócio sustenta empregos, manutenção, impostos e investimentos.
Aprendi que dizer “não” de forma respeitosa também faz parte da gestão. Amigos e familiares podem colaborar divulgando, respeitando as regras, valorizando o trabalho e compreendendo que uma empresa precisa manter equilíbrio financeiro para continuar funcionando.
“Limite não é falta de consideração. Muitas vezes, é o que permite preservar a relação e o negócio.”
A identidade construída ao longo dos anos
A filosofia de convivência permaneceu, enquanto a estrutura e os serviços acompanharam as mudanças do público.
O Bonito HI Hostel nasceu ligado à filosofia da Hostelling International, que valorizava a convivência entre viajantes, a troca de experiências e uma hospedagem acessível. Nos primeiros anos, o perfil dos hóspedes era predominantemente aventureiro, com forte presença de estrangeiros e pessoas dispostas a compartilhar espaços e conversar sobre suas viagens.
Naquele período, os quartos não tinham televisão nem frigobar. A decisão fazia sentido dentro da proposta original e dos recursos disponíveis. Havia uma sala de televisão compartilhada, salão de jogos e áreas de convivência. A ideia era incentivar o encontro entre os hóspedes e evitar que cada pessoa se isolasse no quarto depois dos passeios.
O público mudou, a tecnologia mudou e a hospedagem também precisou mudar. Ao longo dos anos, reformas foram planejadas, estruturas foram modernizadas e a operação se adaptou a novas expectativas. O que fazia sentido no início não precisava permanecer igual para sempre.
Essa adaptação, porém, não eliminou a identidade do hostel. As áreas comuns, o contato entre viajantes e o atendimento próximo continuaram importantes. O desafio passou a ser combinar a convivência que marcou o começo da história com o conforto e a praticidade esperados pelos hóspedes atuais.
A administração também aprendeu a trabalhar com a sazonalidade. Os períodos de maior ocupação precisam ajudar a manter equipe, manutenção e melhorias nos meses mais tranquilos. Reformas e compras são avaliadas com antecedência, considerando custos, necessidade e capacidade de pagamento.
Aprendizados construídos na rotina
Muitas regras não nasceram no papel. Surgiram depois de observar o uso dos espaços e buscar soluções mais seguras e organizadas.
Administrar uma hospedagem significa acompanhar milhares de pequenas situações. Áreas compartilhadas, equipamentos de lazer, festas, churrasqueira e espaços externos dependem da colaboração de quem utiliza. Quando isso não acontece, a equipe precisa dedicar mais tempo à limpeza, à manutenção e à recuperação do que foi deixado fora do lugar.
Foi assim que várias regras do hostel surgiram. A proteção da mesa de sinuca, por exemplo, precisava ser recolocada depois do uso para evitar poeira e umidade. A churrasqueira exigia atenção com fogo, fumaça, resíduos e segurança. As confraternizações de Natal, Réveillon e Carnaval eram agradáveis, mas demandavam organização e participação responsável.
Em alguns momentos, foi necessário limitar o uso de determinados espaços ou interromper atividades. Essas decisões não foram tomadas para reduzir a convivência, mas para preservar o patrimônio, a segurança dos hóspedes e as condições de trabalho da equipe.
A rotina ensinou que hospitalidade também envolve regras bem explicadas. Quanto mais claro é o funcionamento da casa, mais fácil se torna manter um ambiente agradável para todos. O objetivo nunca foi controlar cada movimento, e sim garantir que diferentes pessoas pudessem compartilhar o mesmo espaço com respeito.
- Regras claras reduzem conflitos e evitam interpretações diferentes.
- Segurança e limpeza precisam prevalecer sobre conveniências momentâneas.
- Áreas compartilhadas funcionam melhor quando todos compreendem sua responsabilidade.