As Lendas de Bonito

Um pouco da história de Selvino Jacques:

            “o últimos dos bandoleiros”

1- Lenda das 700 Luas –   houve uma época em que toda a região da Serra da Bodoquena era habitada pela brava e admirável nação indígena dos Terena. Entre os valores que cultuavam, o amor se sobressaía.

Cacai, a mais bonita de todas as jovens terenas pertencia a uma tribo localizada próxima à Gruta do Lago Azul, mas os guerreiros de todas as tribos já haviam ouvido falar da índia e seus encantos.

Um de seus pretendentes, um jovem cacique escolheu Cacai para companheira e, como mandava a tradição, convidou-a para o pacto das 700 luas. Nele noivo e noiva se conheciam durante 700 luas e em seguida ambos decidiriam quanto ao casamento (a resposta, positiva ou não era aceita respeitosamente por outros membros da tribo), que ocorria na Gruta do Lago Azul, onde eram pronunciadas palavras mágicas que só os velhos terenas conheciam.

Transcorria o namoro de Cacai com o jovem chefe da tribo, como era do costume daquela gente, mas o deus do destino, que coloca os sentimentos no coração das pessoas, tinha outros planos para Cacai. Certo dia caiu prisioneiro daquela tribo um guerreiro estrangeiro. Tinha a pele clara e carregava nos olhos um brilho que Cacai jamais vira. Os seus cabelos castanhos apresentavam mechas brancas, revelando que aquele guerreiro forte e ágil era quase um ancião. Cacai cuidou de seus ferimentos, ensinou-lhe a sua língua, conquistou a sua alma e descobriu que ele era o verdadeiro amor da sua vida.

Quando as 700 luas passaram, a resposta de Cacai foi de que não se casaria com o chefe da tribo. Ele, inconformado e enfurecido, obrigou a realização do ritual, contrariando a sagrada tradição terena. O pacto foi realizado, e para desespero de Cacai, as palavras mágicas foram pronunciadas. Não havia mais esperanças para Cacai e seu amado. Qualquer mulher que quebrasse o sagrado juramento tinha o seu coração traspassado por uma fria flecha terena. Cacai sabia disso, mas sabia também que devia obediência ao valor supremo do amor. Curvou-se a ele. Naquele mesmo dia fugiram numa canoa, descendo o rio Formoso. O cacique reuniu seus guerreiros e… Cumpriu-se a maldição. O sangue de Cacai e seu amado foram tornando a água do rio Formoso cada vez mais limpa e quando a última gota foi derramada, todo o rio e até seus afluentes estavam com a água cristalina e transparente como fora o coração de Cacai (…)

(Autor desconhecido – in Comtur – e Redação).

2 – Lenda do Sinhozinho Figura mítica, um homem considerado santo por seus seguidores, Sinhozinho já se incorporou à história e ao folclore bonitense. O mestre divino, curandeiro e milagreiro, senhor de barbas longas, olhos e cabelos claros apareceu na região por volta de 1944. …Vestia um longo manto sob o qual seu braço esquerdo permanecia sempre escondido, sem nunca ter sido visto. Alimentava-se apenas de frutas, mandioca, peixe e mel, do qual carregava sempre um frasco e molhava os lábios constantemente. Não falava, comunicando-se apenas por gestos que fazia para o alto (…).

Sua mais famosa lenda é a da imensa serpente que vive no subsolo da cidade, e que um dia sairá e acabará com tudo, caso as pessoas não cuidem bem da natureza…

Durante suas peregrinações pela região, construiu várias cruzes de madeira que deixou fincadas por onde passava.

Por ter arrebanhado inúmeros seguidores, e pelos seus poderes de curar enfermidades, despertou a ira de autoridades e comerciantes de medicamentos, que se tornaram seus inimigos. Foi preso e morto, e diz a lenda que seu corpo foi esquartejado, tendo cada membro jogado em um dos rios da região, o que explicaria a limpidez cristalina das águas.

Até os dias de hoje, em 12 de outubro, ocorrem procissões à Capela do Sinhozinho, localizada próxima ao Rio Mimoso, onde ainda está guardada uma de suas cruzes, objeto da adoração de seus devotos.

(Daniel de Granville Manço* – in Comtur – e Redação).

Daniel de Granville Manço é biólogo, especialista em morcegos da Mata Atlântica, guia de ecoturismo em Bonito, Pantanal e Região e fotógrafo.

3 – Lenda dos Enterros da Guerra do Paraguai A região Sudoeste do antigo Estado de Mato Grosso foi palco da Guerra do Paraguai, ocorrida entre 1865 e 1870, onde muitos combates violentos entre as tropas brasileiras e paraguaias aconteceram. Também os índios participaram da guerra, tanto ao lado de brasileiros como de paraguaios.

Nessa época os assaltos e saques nas fazendas tornaram-se freqüentes, obrigando os colonos e fazendeiros a mandarem suas famílias para longe, às vezes fugindo junto. Existem relatos de famílias e empregados que viveram escondidos nas matas da região até o final do conflito, alimentando-se de caça e do gado solto nos pastos

Conta-se que essas famílias, com medo dos assaltos, enterravam seus bens e riquezas em potes ou baús nos campos, às vezes perto da casa da propriedade, outras em mangueiros (currais na linguagem regional) ou ainda sob árvores frondosas. O objetivo era de recuperar esses Enterros após o término da guerra, tomando posse de suas propriedades abandonadas

Porém muitas dessas famílias acabaram morrendo ou desaparecendo, e as riquezas ficaram desaparecidas nos campos da região. Aqui começa a lenda dos Enterros. As pessoas que sabiam dessas histórias começaram então a procura pelos potes perdidos nos campos, seguindo referências incertas.

Os espíritos dos fazendeiros mortos ajudavam a encontrar seu tesouro escondido, comunicando-se através de sonhos com seus descendentes, mostrando o local exato onde este se encontra. Daí é só tentar identificar na região o que foi visto no sonho.

Às vezes pode acontecer de algumas pessoas que não são descendentes dos antigos fazendeiros também terem essa visão em seus sonhos, em forma de fogo queimando em um determinado lugar. Quem sonhar não pode de maneira alguma contar o que viu a outras pessoas, com risco de nunca encontrar o Enterro. Logo de manhã, deve sair em busca do local sonhado, que estará marcado com labaredas de fogo. Ao encontrá-lo, precisa cavar enquanto reza fervorosamente, sem desistir, pois assim que iniciar a escavação, os espíritos dos fazendeiros estarão tentando evitar a retirada do seu eterno tesouro. Quando finalmente retirar o Enterro, essas assombrações vão finalmente descansar de seu longo período de guarda.

Existem relatos de inúmeras pessoas que encontraram os Enterros na região. Nunca são identificadas com certeza, visto que teriam medo da maldição que recairia sobre eles se revelassem este segredo. Passam a vida rezando pela alma dos mortos que deixaram sua herança para desconhecidos do futuro.

(Maria Antonietta Castro Pivatto* in Comtur)

Fonte: COMTUR

A História de Selvino Jacques – “o último dos bandoleiros”

Não é uma lenda, uma realidade – Selvino Jacques que nasceu em São Borja, cidade do Rio Grande do Sul, foi afilhado do presidente Getúlio Vargas. Depois de vários crimes cometidos no Sul, foi para o antigo Mato Grosso. Participou como Capitão na Revolução de 32, lutando a favor do seu padrinho Getúlio.

OBS: O nome correto é “Selvino Jacques” e não Silvino Jaques.

Depois de terminado o conflito, por ordem do Presidente, começou a perseguir os paraguaios radicados na região sul do Estado e se colocou a serviço do latifúndio. Recebeu apoio do Exército, que lhe fornecia armamento. Tornou-se bandoleiro perigoso, tendo-se juntado a Raída, uma filha de Bonito (MS), em cujos braços morreu em 1939, aos 33 anos de idade, vitimado por uma bala de fuzil. Três anos antes, ele havia morto o paraguaio Manoelito Coelho, cunhado de Orcírio dos Santos, membro do clã de seo Alípio dos Santos, coronel poderoso na época. O projétil que vitimou Selvino partiu do delegado de captura Orcíro, pai do ex-governador do MS, José Orcírio Miranda dos Santos (Zeca do PT).

O Livro Selvino Ermínio Jacques: O último dos bandoleiros do autor, Brígido Ibanhes, relata as façanhas desse afilhado de Getúlio Vargas que por muito tempo se refugiou em Bonito (MS) e região.

Selvino Jacques: O últimos dos bandoleiros

O Livro Selvino Ermínio Jacques: O último dos bandoleiros do autor, Brígido Ibanhes, relata as façanhas desse afilhado de Getúlio Vargas que por muito tempo se refugiou em Bonito (MS) e região.

Brígido Ibanhes

Nasceu na Rua Jatayty-Corá, em Bella Vista Norte (PY), em 08 de outubro de 1947, filho de Aniceto Ibanhes e Affonsa Christaldo de Ibanhes. Dois meses antes do seu nascimento, Guimarães Rosa esteve a passeio nas imediações da sua casa, e deixou suas impressões sobre a pequena cidade paraguaia.

Brígido é filho de brasileiros que se refugiaram no país vizinho por conta da perseguição do bandoleiro Selvino Jacques. Foi registrado em Bela Vista, Brasil, onde passou a estudar a partir do segundo ano primário. Aos dez anos, ingressou no Seminário Redentorista, em Ponta Grossa (PR), onde teve acesso à literatura clássica nacional e internacional.

Além do guarani, espanhol e português, aprendeu o inglês, o francês, o latim, o grego e teve noções de italiano. Aos doze anos ganha seu primeiro concurso literário com o poema “Noite Cigana”. Concluído o Científico, sai do Seminário e segue para São Paulo (SP). Em 1966 presta o serviço militar no 10° Regimento de Cavalaria, em Bela Vista (MS), após o que volta para São Paulo.

Dois anos depois, retorna para sua terra natal por conta de acidente do seu pai. Presta concurso e é nomeado funcionário público, tendo exercido o cargo de tesoureiro da Prefeitura e encarregado do Serviço Autônomo de Água e Esgoto. Ingressa no Banco do Brasil em 1972, quando tem a oportunidade de trabalhar em Minas Gerais e Pernambuco. De retorno ao Mato Grosso do Sul, lança seu primeiro livro em 1986, em Sidrolândia (MS). “Selvino Jacques, o último dos bandoleiros” é apreendido e o escritor ameaçado de morte.

Após seis anos de pendenga judicial, a obra é liberada pelo Tribunal de Justiça do Estado. É adotado pelo Pen Club International em 1992, durante o 58° Congresso Internacional de Escritores, no Rio de Janeiro (RJ). Edita “Che Ru, o pequeno brasiguaio”, “A Morada do Arco-Íris”, “Kyvy Mirim” e “Ética na Política, entre o sonho e a realidade” e o romance “Marti, sem a luz do teu olhar”.

Sua literatura retrata o universo da fronteira, o cheiro das matas e a força da cultura guarani, bem como expõe os dilemas sociais e a história dos oprimidos. Sempre usou as letras em defesa da cidadania, das minorias e dos direitos humanos, o que lhe valeu dissabores e perseguições.

Na noite de 14 de maio de 2006 sofre violento atentado a bomba em sua residência, juntamente com a esposa. Em 27 de janeiro de 2007 é indicado pela Federação das Academias de Letras e Artes do Mato Grosso do Sul para o Nobel de Literatura.

Fonte: artecomunitária.com

Muitas são as lendas e façanhas atribuídas ao Selvino Ermínio Jacques – o último dos bandoleiros – o mito gaúcho-guaicuru. Muitos o acusam de barbaridades, terrorismo, e muitos têm-no como um homem idealista, magnânimo e romântico. Na verdade, ele foi um pouco de tudo isso, um boêmio terrorista, um autêntico bandoleiro, do tipo que não existe mais.

As Lendas de Bonito

Vou contar uma história,
Que muitos devem saber,
Mas contada por quem não viu
É justo não devem crer.
E para que todos saibam
Bem certo vou escrever.

Selvino Jacques

Ao escrever sobre Selvino Jacques, o escritor teve como objetivo narrar a realidade dos fatos, e contribuir com resgate histórico. Com o tempo vai se transformando em lenda, falseando  muitas vezes a verdadeira história. Trata-se de uma parte importante da História do Mato Grosso do Sul.

Selvino Jacques á direita, de chapéu e com revolver na cintura - década de 1930
Selvino Jacques á direita, de chapéu e com revolver na cintura – década de 1930

Quem foi Selvino Jacques ?

Meu nome eu nunca neguei,
E não pretendo negar:
Me chamo Selvino Jacques,
Eu nunca procuro o mal.
Ele é quem me procura

E sempre há de me encontrar.

Sou natural da fronteira,
Do Rio Grande estimado.
Criei-me como um gaúcho
De pingo bem encilhado,
Sempre alegre e altaneiro
Sem maldizer meu Estado.

Um feiticeiro me disse:
– Escute, senhor Selvino,
pelos olhos eu conheço
Vai ser ruim seu destino
Parece que ele sabia
Que eu ia ser assassino.

Embora triste e aborrecido
Nunca dei demonstração.
De que serve entristecer-me
Se para mim não há perdão ?
Embora morra como um valente,
Não me entrego á prisão.